Quaisquer afirmações ou apontamentos a respeito de futuros possíveis são meramente apostas. Ainda que se diga haver uma ciência no entorno da construção de cenários e potenciais futuros, o acaso e o caos frequentemente os inviabilizam, principalmente em situações de grande instabilidade como a que vivemos nos últimos anos. Convidado a apostar no que estaria por vir, opto por uma postura conveniente, a de afirmar que talvez o futuro seria um esgarçamento das tendências do presente. Mais ainda, me baseio na seguinte pergunta: como pensar um futuro pós pandêmico quando a própria condição de pandemia é negada ou subestimada nas redes?

Seguindo a análise[1] do colega Rafael Evangelista, para quem o futuro se apresentará como aceleração, exceção e ruptura, quero me deter um pouco mais na noção de aceleração. Derivando alguns entendimentos dos diálogos (teóricos) que tive com a obra de Paul Virilio – a quem a dromologia era categoria explicativa da sociedade – quero explorar a perniciosidade e fragilidade de um contexto (pós) pandêmico crescentemente ordenado por formas de afastamento tecno-mediados. Como veremos, a mediação digital da comunicação – operando através de plataformas e redes sociais – entra no contexto de um motor de aceleração na cosmologia de Virilio, e como toda aceleração, acidentes distintos também serão produzidos. Neste caso específico, entendo a perda perceptiva, o distanciamento e desinformação por hiperinformação as marcas do contemporâneo que parecem ser esgarçadas.

Em seus destaques, Evangelista aponta “coisas como a educação a distância, movida a capitalismo de vigilância, ou o home office, que aprofunda a exploração do tempo do trabalho e transfere custos fixos de estrutura ao trabalhador (aluguel, luz, internet etc). Presos em casa, somos reféns de ferramentas da computação que nos permitem viver em uma simulação de normalidade por meio de contatos-distantes”.

De fato, desde meados do mês de março, o mundo imergiu no ambiente on-line: Em relação a meses anteriores, no mês de abril houve um aumento de 25% no tráfego de dados on-line, e um aumento em 42% em transações nesse mesmo ambiente – no Brasil o aumento na compra de bens on-line chegou a  40% no último mês. De acordo com dados do Global Web Index, no mundo todo houve um aumento de 67% na audiência de notícias, enquanto no Brasil esse aumento chegou a 69%; no mundo houve um aumento de 51% no consumo de streaming, sendo que no Brasil esse aumento foi de 43%; o uso de sistemas de mensagens aumentou 45% no mundo e 48% aqui, enquanto que o tempo gasto em redes sociais no mundo e no país aumentou respectivamente em 44% e 50%. As mesmas fontes apontam, ainda, que nos últimos meses o Brasil aumentou em torno de 21% a produção de conteúdo em plataformas digitais, como Youtube, Tik Tok, Instagram.

A necessidade de confinamento intensificou a mediação da vida por meio de plataformas digitais, em especial redes sociais. O acesso a informação e entretenimento, o estabelecimento de reuniões e de comunicação já passava de forma abundante por esses canais. No entanto, a alteração da rotina das pessoas e cumprimento de horários distintos tem feito com que essas plataformas sejam reforçadas como canais exclusivos de comunicação – a vida relacional extra-digital torna-se subitamente suspensa. Em uma leitura que foi desenvolvida na virada dos anos 2000 por especialistas como Pierre Levy e Manuel Castells, isso não seria um problema, pois essas redes de comunicação que se desenvolviam na internet nos emancipariam de uma dependência de mídia tradicionais – seria possível driblar os padrões de manipulação que coibiam possibilidades de pensamentos diversos.

Todavia, pelo menos nos últimos 10 anos expoentes dos estudos de vigilância têm habilmente demonstrado que tais plataformas constituem-se como os núcleos de um capitalismo de vigilância – no qual a coleta massiva de dados e seu consumo são o epicentro dos  processos de acumulação contemporâneos. Isso significa que, por vezes, as plataformas figuram como meios que selecionam, moderam e direcionam conteúdo, baseados no padrão de relacionamentos dos usuários. Esse arranjo resultou em uma série de crises nos planos internacionais e locais, em que Facebook contribuiu para práticas ilegais da Cambridge Analytica, informando perfis e direcionando conteúdos durante as últimas eleições estadunidenses, britânicas e brasileiras.

Essa condição é a que torna cada vez mais obscuros os imaginários de um contexto pós-pandêmico, principalmente no Brasil. Ao considerarmos o inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito da produção de noticias falsas, por conluios de agentes políticos, empresas privadas, nacionais e transnacionais, verifica-se como o uso de plataformas e redes sociais é decisivo para erigir versões deturpadas de alguns temas, desviar atenção, direcionar ataques a figuras públicas, em suma, instrumentalizando-as como armas políticas. Dessa instrumentalização produz-se um simulacro da realidade que, em tempos normais de associação “orgânica”, já gerava grande tumulto. Agora, se sedimenta como forma de assegurar que o futuro não seja entendido como possibilidade.

Considerando que é no atual pandêmico que se coloca uma encruzilhada na qual estão em disputa horizontes de futuro no pós pandêmico, encontramo-nos em uma disparidade de relação entre grupos que oligopolizam mecanismos de “shitstorm”, agindo como soberanos na rede[2], limitando quaisquer produções de imaginários de liberdade e superação, desinformando e estendendo a crise.

Essa operação de amplificação da crise e colonização do futuro por enxames digitais tem na velocidade uma estratégia determinante. Assemelhando-se à conhecida doutrina do choque produzida por Jeffrey Sachs para desestabilizar reações políticas à expansão do neoliberalismo no leste europeu, a ação das tempestades de acusações, informações, escândalos, hashtags e desinformação ocorrem de forma sucessiva, rápida, impedindo a reflexão e produção de respostas. A catatonia e a espetacularização passiva da política e do mundo é uma função direta da velocidade desse motor informacional.

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Para Virilio, a relação entre o humano e as máquinas que permeiam a vida em sociedade é marcada por diferenciais de aceleração. Isto é, motores que permitiram o humano se deslocar com maior celeridade em terra, no ar, no espaço, conferiram formas distintas de ver e sentir o mundo e se relacionar com o tempo. Evidentemente, produziram novos desastres, levando o autor a considerar que, a cada nova aceleração, um novo tipo de acidente se avizinharia. Na iminência de um novo motor, o informacional, Virilio entende que o acidente agora ocorre no diferencial entre o olhar da máquina (sua velocidade de produção de informações) e a velocidade do olhar humano (relacionado a sua capacidade sensorial de captação e percepção). Nesse contexto, a susceptibilidade do olhar humano ao ritmo do motor informacional necessariamente produziria o que ele entende como perdas perceptivas de um organismo que não consegue se adaptar à máquina e se rende a instantes narcolépsicos. Retirando desse mundo cifrado, diante da velocidade da informação, perdemos a noção do todo (diante dos fragmentos de informação, consumimos as mutilações restantes), não temos acesso ao contraditório (nos rendendo a espaços de conforto moral), fundamentalmente perdemos a capacidade de avaliação crítica da nossa condição.

Não acredito na negação do digital enquanto espaço de sociabilidade e de produção de realidade. Todavia, entendo que a aceleração informacional, instrumentalizada enquanto aparato político, se apresenta como nociva para a sociabilidade em si, e para o plantio de horizontes críticos – é justamente a aceleração como estratégia que parece ser o eixo a ser desmobilizado, nos devolvendo o tempo de reflexão e articulação essencial para a superação desse estado pandêmico.

Como exemplo da nocividade dessa aceleração, as redes em disputa no Brasil induziram pessoas a erros e desinformação básica a respeito das profilaxias e do escalonamento da Covid-19. Em um episódio, uma deputada de extrema-direita ligada à rede de apoio do governo divulgou uma noticia falsa relativa à cerimonias fúnebres sendo realizadas com caixões vazios (levantando dúvida em relação à letalidade da doença), induzindo diversas pessoas a abrirem caixões lacrados (para evitar contágios com corpos infectados). A notícia se espalhou de modo muito rápido, mas levou dias para ser desmentida por canais formais de comunicação, potencialmente provocando diversos danos.

Por sua vez, pensando na desmobilização dessa aceleração, entendo que redes de apoio, resistência e solidarismos parecem possíveis ainda na rede. A construção de identidades, grupos de interesse e estudos direcionados a pontos nodais nas redes tem se mostrado algo bastante robusto para o enfrentamento de enxames de produção de desinformação. Nos EUA, fãs de K-pop sabotaram hashtags da extrema direita “blue lives matter” (que tinham por objetivo menosprezar a atenção aos movimentos do “Black Lives Matter”), inserindo conteúdos distintos dos temas que poderiam ali figurar.  Por outro lado, mapeamento de redes sociais por agencias e grupos de pesquisa universitários permitem encontrar centros de difusão e retransmissão de notícias falsas ou distrações, e mais do que isso, permitem compreender como grupos se alinham. Esse conhecimento permite expor pontos de fragilidade na rede, quebrando ritmos de comunicação.

Seria possível ter levado adiante aqui uma análise destacando o arranjo do futuro enquanto esgarçamento das tendências do presente pandêmico: mais vigilância justificada na segurança sanitária, maior profusão de aparatos biométricos configurando controles biopolíticos, além de um incremento do autoritarismo enquanto fase do neoliberalismo. No entanto, nenhuma dessas perspectivas tem relevância se nos for privada uma perspectiva crítica sobre o presente (os limites da comunicação e da percepção sobre o real estado da pandemia e do jogo político que a atravessa) e sobre o futuro enquanto possibilidade aberta de superação (entendendo a superação da pandemia como enfrentamento de formas de governo autoritárias e restaurando redes de solidariedade e confiança). Tragados por um looping perpétuo de discussões inócuas, aceleradas pelas redes que negam a gravidade do presente pandêmico, o que resta é o esgarçamento da própria pandemia.


[1] Me refiro ao texto publicado na ComCiência em seu Dossiê 217.

[2] Esse argumento é desenvolvido por Han em seu livro No Enxame: perspectivas do Digital, no qual ele reformula a idéia de soberania em Carl Schmitt e Giorgio Agambem, entendendo o soberano enquanto aquele que decide sobre a “Shitstorm” (a agressão coordenada, e a pauta de informações na rede).


* Este artigo foi originalmente publicado no ComCiência em seu Dossiê 218.

** Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI) ou do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/UNESP)”