Foi em 8 de abril que o senador Bernie Sanders (I-VT), de 78 anos, encerrou sua participação na briga pela indicação do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos. Sua saída abre caminho para o nome desde sempre preferido das lideranças da legenda: o ex-senador Joe Biden. Diante de si, o vice-presidente de Barack Obama terá agora a árdua tarefa de acomodar diferentes vozes, prioridades de agenda e frustrações de quem há muito tempo não se sente ouvido, nem bem representado, pelo partido.

O anúncio do apoio de Sanders a Biden veio alguns dias depois, em 13 de abril. Nele, em busca de uma unidade que ainda precisará ser consolidada, ambos prometeram formar equipes para pensarem juntos questões como sistema de saúde, mudança climática, economia, educação e imigração. Temas que se tornaram ainda mais sensíveis no governo Donald Trump e diante da aguda polarização política em Washington.

O senador por Vermont deixou a corrida, após somar 937 delegados, contra os 1.293 delegados do adversário. Pelas regras atuais do Partido Democrata, são necessários 1.991 delegados para conquistar a indicação e ser anunciado oficialmente candidato – o que, salvo motivos excepcionais, deve ser atingido por Biden.

Saída honrosa

Em seu discurso de despedida transmitido on-line, o senador socialista-democrata destacou o que se tornou evidente desde sua última campanha para a Casa Branca, em 2016. Nela, já havia sido sufocado pelo establishment democrata, o qual abraçou a candidatura da ex-secretária de Estado e ex-senadora (D-NY), Hillary Clinton, mas não conseguiu evitar o contágio da plataforma de Bernie. O exemplo mais recorrente deste impacto é a incorporação da defesa da remuneração de US$ 15 a hora para o trabalhador americano no discurso democrata.

Bernie Sanders saiu maior desta disputa, ao optar pela coerência, lucidez e altruísmo em tempos de tamanha gravidade. Além da dramática pandemia do novo coronavírus, também acumulamos uma epidemia de absurdos e equívocos políticos em vários países e níveis de govermo. “Eu não posso, em sã consciência, continuar a fazer uma campanha que não pode vencer e que interferiria no importante trabalho exigido de todos nós neste momento difícil”, reconheceu Sanders em sua live de despedida.

A avaliação é correta. Diante de um rival favorecido pela exposição constante e inevitável na imprensa (por se tratar do presidente do país) e pelos recursos bilionários de que o empresário republicano dispõe (tanto próprios quanto doações), manter uma campanha já numericamente perdida apenas contribuiria para reforçar a divisão no partido e alimentar a artilharia retórica de Trump. Fogo amigo seria bastante contraproducente nesta etapa de uma disputa já desleal. Como competir com um presidente que despreza o espírito público e republicano e usa eleitoralmente a tragédia de uma pandemia, ao fazer propaganda do próprio nome no envio dos cheques de auxílio social para a população mais atingida?

Fatores da derrota

Em boa parte dos casos, a derrota (ou seu reconhecimento antecipado) é multifatorial.

A falta de apoio da cúpula partidária a Bernie Sanders foi crucial, mas se tornou determinante porque articulada com outros elementos. Entre eles, falhas na estratégia de campanha, a pouca diversidade do perfil de seu eleitorado e a menor participação deste mesmo simpatizante nas urnas, a perda de grupos que estiveram ao seu lado em 2016, a incapacidade de ampliar sua fatia no eleitorado afro-americano, a baixa percepção de “elegibilidade” devido à sua agenda “radical” e o consequente voto útil.

Na briga pelo voto afro-americano, Sanders manteve a média da última eleição, de pouco mais de 20%, enquanto Biden registrou uma ampla (e já esperada) margem, especialmente desde a primária na Carolina do Sul, realizada em 29 de fevereiro. Em vários estados, como Virgínia, Texas, as Carolinas do Norte e do Sul e Alabama, o vice de Obama obteve mais de 60% dos votos dos eleitores negros.

Como afirmou o pesquisador do INCT-INEU Felipe Loureiro em artigo recente, Biden é imbatível entre os negros americanos. Trata-se de uma vantagem e tanto. Desde 1992, os eleitores negros têm sido decisivos nas primárias da sigla, respondendo por quase 25% do eleitorado democrata hoje. Em 2016, este grupo representou algo em torno de 12% do eleitorado americano.

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Com a esmagadora vitória de Biden na “Superterça”, em 3 de março, ex-pré-candidatos endossaram seu nome, como o ex-prefeito de South Bend Pete Buttigieg, a senadora por Minnesota Amy Klobuchar e o ex-representante Beto O’Rourke. Mais adesões de ex-pré-candidatos e de medalhões do partido surgiram, como Kamala Harris e Cory Booker, enquanto o senador socialista via sua campanha se esvaziar. Os pedidos de #DropOutBernie e #NeverBernie também começaram a aumentar nas redes sociais.

Outro fator a ser considerado foi a redução no número de caucuses e no total de delegados concedidos, uma modalidade na qual Sanders teve um bom desempenho em 2016. Sua campanha também não foi bem gerenciada, sobretudo, depois das vitórias em Nevada e na Califórnia e da alta votação em Iowa e em New Hampshire obtidas pelo progressista. Além da demora no ajuste estratégico após a virada de Biden na Carolina do Sul, Sanders continuou insistindo, por exemplo, em estados claramente pró-Biden, como Michigan. Uma perda de tempo e de dinheiro – recursos já escassos para o senador de Vermont.

Embora ainda fosse o pré-candidato preferido dos eleitores com menos de 45 anos (sobretudo na faixa entre 18 e 29), esta preferência não foi suficiente para fazê-los votar em massa. Junto a isso, Bernie perdeu espaço entre os trabalhadores brancos sem nível superior.

Voto útil e legado

Para 3 de novembro próximo (se o calendário for mantido), a aposta do establishment partidário e do eleitor democrata médio se confirmou como o candidato branco, heterossexual e de centro. A briga não foi, no fim das contas, pela melhor plataforma, ou por atualizar a identidade da sigla e seus valores, e sim por apoiar o nome visto como o mais bem situado para derrotar Trump. Para muitos eleitores, o voto em Biden foi estratégico. Muitos votaram sem se informar sobre os principais pontos da plataforma do ex-vice-presidente. Para eles, Joe Biden representa um modelo conhecido e seguro de política e é mais palatável para um maior leque de eleitores.

Mesmo que esteja cercado dessa expectativa de previsibilidade e de alguma manutenção do status quo, Biden não poderá (ou não deveria) ignorar demandas e agendas como Medicare for All, Green New Deal, ensino universitário gratuito (ou mais acessível), entre outros programas defendidos por Sanders. Essa negociação será inevitável e um grande desafio para aquele que espera derrotar Trump.

O senador socialista continuou na corrida eleitoral tempo bastante para acumular capital político e simbólico para defender sua plataforma. Está contribuindo para mudar ideias há muito estratificadas no Partido Democrata, ajudou a naturalizar as agendas mencionadas acima, mostrou o alcance e a força dos pequenos doadores e a importância de se ter um coeso e fiel núcleo de eleitores – os jovens, os mais progressistas e os hispânicos.

Não foi suficiente para torná-lo candidato, mas, com a liberdade da paráfrase ao próprio Sanders, um movimento a favor de mudanças sociais foi criado, continuará vivo e deixa seguidores. Um destes nomes promissores da política americana é a representante democrata Alexandria Ocasio-Cortez (D-NY), revelação das midterms de 2018. Muitos apostam nesta americana de origem porto-riquenha como o novo rosto do partido nas próximas eleições presidenciais.

 


Este texto foi publicado originalmente no site do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) https://www.opeu.org.br/

Autor

  • É pesquisadora do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI-IPPRI /UNESP) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). É também editora do OPEU (Observatório Político dos Estados Unidos ) e assistente editorial da revista Sul Global, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ).